segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Conto: Um Computador e um Velho

Como nascemos?
De um dia saber, o infinito zerar, estamos à mercê.
Mas como um velho enfrentaria um computador?
Retinas opacas, perto o estrangeiro, o novo e quadrado disco voador.

Mas hoje não há o que fazer.
Como e por que essas pessoas magras, que ainda nem sabem nem ao menos de si, entendem as máquinas?
Mas hoje não há o que fazer.
Retinas opacas.
Estava dormindo. Era um velho. Nunca ria.
Retinas opacas.
Aqueles olhos que assustam quando veem consigo e ao próximo.
Desafiarão a ordem e o caos. Tão minúsculos olhos, tanta coisa vivida; um pedido de paz.
A força do homem se acaba um dia.
Não lhe respeitam sequer os animais.

Foi embora, ao volante, dirigindo lento.
Como se a velocidade até no carro quebraria seus ossos.
Percebeu que não sentiriam sua falta.
Mas ele sentia amor pelo filho crápula; à sua imagem e semelhança.
Um dia não retornaria à garagem.
O amor pelo filho.
O desprezo deste.
Aos filhos só lhes interessam os próprios filhos.
Por isso odiava os netos.
Que vêm aos sábados e abrem o computador.
Um velho jamais vê um computador.
Ao computador não  importa o velho.
O velho abrindo os olhos - um plano frustrado.
Teria ele desistido da vida.
Um velho não se dá luxo de sonhos.
A um velho Deus só reservou as lembranças, as saudades.
Que têm pensado?
Que viveria eternamente como criança?
Que passaria a ponte sem pagar pedágio?
Que tens na cabeça, velho?
Pra que sonhas?...
Vivo, o velho, viu a máquina.
Tudo que as pessoas querem, por que trocaram Deus por um monte de fios.
Se um dia ficasse a sós com ela a quebraria.
O que é uma máquina,
Quando viu nascerem bois e ovelhas;  e quando os viu cruzarem, e a terra secar, e os filhos gritarem? Filhos dos filhos. Não decorara salmos, mas agora sabia rezar...

Não sabia rezar.
Sabia repetir.
Mas o que muda orar? Era um velho!
Iria mesmo morrer.
Comprou e pagou; estavam quites.
Deus, ora, Deus!
Esse de quem todos falam.
Todos estão mudos, pois!

O velho.
Um barco direto às rochas.
Uma garrafa em alto mar, quem ler-lhe-ia se o abrisse?
Com a pele que sobra nas articulações. Maldita seja!
Pele se encontrava nele até dentro dos ossos.
Uma estátua automotiva - um moribundo ambulante.

Perdido e só, desinteressante.
No reveillon todos saíram e deixaram-no com a empregada.
Maldita pele em excesso.
A mulher desaparecera.
Estava num quarto.
De frente pra ela - até a empregada servia agora aquela que, o próprio Deus, sabotara: a Máquina.
O velho olhou.
Retinas opacas e o velho viu.
E o que velho viu justificou todo seu intento.
Seria... a máquina do tempo?

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